AS CRIANÇAS INVISÍVEIS

TUDO ACABA, é aguardar e o momento chega. Não é quando se espera. As luzes apagam‑se e as sombras crescem. É um repente. O corpo encolhe‑se um pouco, as mãos cerradas, prontas para uma qualquer luta. Há monstros.
De certeza que existem e que estão ali, no armário, escondidos, à espera que feche os olhos. Os monstros. E depois há o tal momento. Entre o querer estar de olhos abertos, vigilante, e o saber que o sono vinga, poderoso. Lutar contra a possibilidade de sonhar, de perder a perspectiva da realidade, de controlar a porta do armário desconhecido. Batalhar, abrir os olhos várias vezes, não sentir a almofada já tão quente. Há quem lute com a noite de várias maneiras. M. consegue retomar os sonhos da noite anterior, precisa de se concentrar e procurar imagens concretas que ainda estão em si, um filme guardado no cérebro, pronto a ser repetido, à espera. Sempre que M. queira. E M. quer muitas vezes aquele sonho em que as cores se transformam em casas de algodão e há pessoas sorridentes, abraços e uma espécie de escorrega que provoca o espírito, um escorrega voador. É um bom sonho, ninguém dirá o contrário, mas M. não tenciona falar sobre isso. Prefere, se não está a sonhar com voar para lá do arco‑íris, viver nos livros dos mais pequenos, aqueles que sabe de cor, como uma lengalenga. É seguro. A história mantém‑se, não há surpresas, as ilustrações podem parecer menos fascinantes com o tempo, porém há alguns desenhos que fazem sorrir: o coelho de chapéu, a menina que gosta de flores, a senhora que abraça uma criança, o carro sem roda que quer ser veloz.
Na cama, M. segura‑se, cruza os dois braços e torna‑se um abraço que é só seu, não precisa de mais nada, aquele aconchego tem de chegar e, por isso, conta que o corpo cresça e faça justiça ao tamanho daquele carinho auto‑infligido. Será, certamente, maior, sempre maior. Cresce‑lhe o corpo, mantém‑se fiel à ideia de pequenez no cérebro, não quer ser outra coisa em momentos bons e quer ser muito grande em horas infelizes. Crescer ou não, dependendo do bem e do mal. M. tenta não pensar nisso. Nem quer considerar o corpo, nem os tempos estranhos em que nada parece estar certo e só isso é incompreensível. Sabe como evitar esses caminhos. O sonho. Concentra‑se no sonho e vê as sombras fecharem‑se, deixarem de existir, tudo atrás das pálpebras, tudo em silêncio.
O medo não entra na sua cabeça, não se transforma em fantasma, não persegue M. pelas noites. Há muito tempo que deixou de ter medo, é o que lhe parece, teima nesse perder de medo, uma aposta que fez e importa ganhar. E o medo para que serve? M. classifica o medo pelo bater dos corações que se alojam na garganta, às vezes é uma correria de bombardeamentos que provocam um som troante, impossível de controlar, o coração aos berros dentro do peito, a subir pela garganta. Pelo suor e o cheiro que deixa na roupa, o medo é um resíduo que se danifica e se cola, prende e domina tudo. M. aprendeu que se contar, se se fixar nos números – e quanto maiores, melhor – o medo desacelera o seu disparo e nada fica toldado. Os monstros sucumbem à lengalenga ardilosa dos números

Houve dias em que o medo cegava. M. ficava incapaz de ver fosse o que fosse, tal como num sonho, queria ser capaz de ver, mas existia somente um novelo de luzes brancas acompanhadas do tal suor e, é preciso dizer, os números mais depressa, seis, sete, oito, nove... combater assim o que se adivinha e é fatalmente mau. Como sucede agora com a ameaça do sonho que quer e não quer, talvez só por uns instantes. Podia deixar‑se ir. Não pode.
Sente vontade de ir à casa de banho e sabe que terá de ir, mesmo que não faça nada, a vontade é uma obsessão, sente uma pressão, tem de ir, tem de ir, já só consegue pensar nisso e o sonho perde força. Abre os olhos, levanta‑se em silêncio, precisa de fazer um esforço adicional para chegar ao chão. Os pés ficam gelados, uma agressão, e M. sente esse frio quando percebe que a tijoleira podia ter um tapete e não tem. Ainda não conhece bem a casa, o chão é frio, a cama demasiado grande, o tecto parece‑lhe baixo, a luz fraca. Está ali há quatro dias. Na sua cabeça não está ali, ainda não tomou a decisão de aceitar que, mais uma vez, se mudou como quem muda de país. Precisa de mais tempo e, agora, tornou‑se imperioso ir à casa de banho.

M. sabe que pode escolher estar ou não estar, não pode é escolher o que o corpo lhe pede, essa exigência é definitiva, não a controla, e entende que o seu eu, o eu da sua cabeça, com quem conversa em quase permanência, não domina o invólucro, que é o seu corpo a dizer coisas. E o corpo quer sentar‑se na sanita. Segue porta fora, o quarto é um planeta que consegue abandonar, tem um fato que o sustenta, oxigénio suficiente, M. vê‑se a flutuar corredor fora, com um capacete de astronauta, e só consegue tomar nota da orquestra de corações na garganta e da melodia ofegante da sua respiração. Recomeça a contar, um, dois, três... e a respiração regulariza. Não sabe se o corredor terá um metro ou dez, é infinito e a porta da casa de banho é uma meta que não irá atingir. O corpo já não é seu. Aperta as pernas uma contra a outra. Terá de atravessar a estratosfera, declinar a possibilidade de respirar, um esforço para não temer o embate e, por fim, deslizar até ao destino, cumprindo a missão. O coração a abrandar. Imagina que a urina corre pelas pernas e apressa‑se a chegar e, uma vez que pousa os pés nos ladrilhos brancos, ladrilhos que não consegue vislumbrar com exactidão, desiste e já não é astronauta.
Vai tacteando, uma parede do lado esquerdo, algo que percebe ser um obstáculo, desvia‑se, agora com pressa, ouve um ruído estranho. Espreita, um olhar pela imensidão do escuro, em direcção às escadas. A luz da televisão faz desenhos na parede, sombras que vão e vêm, não há som; a televisão tomou conta da sala, apropriou‑se da casa e tem vontade própria. Monstros. Não percebe quem possa estar na sala, as horas escapam‑lhe, os pensamentos saltitam e tem a certeza de conseguir acumular perguntas em simultâneo. Pensa várias coisas ao mesmo tempo. Pensará sempre desta forma, várias pistas com ideias diferentes, múltiplos assuntos. Não o dirá, sabe que será mais uma razão que justifica aquele olhar de perplexidade, de incapacidade de entendimento, uma forma muito específica de olhar que só acontece aos adultos. O que não compreendem causa estranheza, os adultos não têm como imaginar coisas.
M. sabe que o jantar ficou no prato e que foi capaz de ver um livro com desenhos a preto e branco, o único livro que existia naquele sítio onde está há quatro dias. Viu o livro durante algum tempo; não sabe quanto tempo. Eram desenhos a traço grosso, quase ofensivos, uma sugestão de um cão, de uma casa. Mais tarde, percebeu que tivera nas mãos um livro de crianças que é feito apenas para agradar aos adultos. Um livro com outro tempo e o tempo é relativo. Os livros que deixou para trás, com coelhos estranhos e carros sem rodas, são melhores. Tem a certeza disso. Não acredita que os adultos saibam da existência de livros assim. No primeiro dia, não fizeram muitas perguntas, limitaram‑se a mostrar os sítios: aqui ficam as toalhas da casa de banho; aqui tens os talheres, os copos, os pratos; podes ver aqui na despensa os cereais e as bolachas; o frigorífico tem sempre o leite na prateleira da porta, atenção quando alguma coisa acaba tens de a pôr no lixo, é ali o lixo, nós reciclamos. As pilhas ficam aqui nesta caixa. Não te preocupes que nós despejamos o lixo. Quando estiveres mais à  vontade, logo te ensinamos onde é o ecoponto, e quando cresceres já podes lá ir sem a companhia de um de nós, ok, é melhor assim. Compreendes? A mulher encarou a cozinha na sua amplitude e suspirou.

Não sei porque lhe estamos a dizer estas coisas, não tem idade para saber nada disto.

 

M. compreende, não é uma questão de idade, possui a destreza mental, até a experiência suficiente, para entender o que são copos e garfos, lixos e outras coisas. Faz por se concentrar, os olhos abertos, vira‑se para ver a despensa, para identificar o lixo, para espreitar o frigorífico prateado. Quer com isto dizer que está ali, presente, a tomar nota de tudo, como é devido, apesar da pouca idade. Aliás, se apostar na sinceridade, depois de duas casas diferentes, livros de regras distintos, tipologias de famílias bizarras, papéis de parede sujos ou alcatifas gastas, compreende que, na sua cabeça, o mundo até é muito simples. Se fizer tudo como deve ser, se se mantiver no silêncio, nada acontecerá. No nada, dentro do nada, está a hipótese de ter uma mãe. Um pai. São sempre tios ou então, como é o caso, têm alcunhas, diminuti‑vos dos nomes que devem ser usados em outros sítios. Em quatro dias sabe as regras; não sabe muito mais.
Por fim, entra na casa de banho e senta‑se na sanita. Às escuras. Com as mãos vai sentindo a tampa, consegue sentar‑se, tem consciência do cuidado que o seu corpo preferia ignorar, mas é crucial, cuidado na forma como se movimenta significa sempre menos ruído e M. é a favor do silêncio, algo que sabe contribuir para o seu bem‑estar. Há um cheiro que não identifica, sente o cheiro como invasivo e desagrada‑lhe, não o identifica; tem a certeza de ainda não ter sujado as cuecas. Fecha os olhos.  O corpo pede‑lhe força e M. faz força. De repente, o coração acelerado, o coração a gritar dentro do peito, a cabeça a exigir‑lhe pressa, o corpo sem se despachar, M. percebe os passos nas escadas.

Não preferes acender a luz?

M. olha para o chão. A luz é um holofote agressivo que expõe, que deixa a nu, e é uma invasão branca, uma luz branca que fere. O adulto insiste na pergunta, há na voz uma nota dissonante e M. percebe o cansaço, a impaciência. A probabilidade de não encontrar compreensão, de existir uma qualquer cena dramática a partir dali. Uma inconveniência. Não deveria ter saído da cama. Se tivesse desistido de ser astronauta teria sido melhor. Para responder ao adulto que, decerto, encara a situação com um rosto sério, aguardando uma resposta, seria preciso encontrar as pala‑ vras e as palavras não são obrigatórias, não se impõem dentro da cabeça, prontas a ser expelidas, as palavras são improváveis, não moram dentro de M. A luz ilumina os azulejos que agora já obtiveram a sua forma real e as cores definidas, são azuis e brancos. Consegue ver as biqueiras dos sapatos castanhos. São de homem e os homens metem‑lhe mais medo. Não quer pensar em ter medo. Um, dois, três... Onde ia? Deveria ter ficado na cama, dentro do sonho. Ouve a porta da casa de banho abrir‑se mais ainda, o volume do homem a fazer peso contra a porta e, depois, um passo atrás e a porta a ficar escancarada, a olhar o buraco negro do corredor onde só se respira se existir um capacete especial, ligado com tubos e luzes a um suporte protector.

Não te esqueças de puxar o autoclismo e de pôr o tampo para baixo. Dorme bem.

Os gestos tornam‑se mais lentos. M. recorda‑se de ter outra idade, de alguém ficar na casa de banho à espera que terminasse, alguém que pegava no rolo de papel higiénico, o seu corpo esticava‑se para a frente, havia aquela sensação do papel rugoso contra a pele, e a pele ficava limpa. Não se lembra de muito mais ou prefere não lembrar. É a mesma coisa. Não. M. precisa de querer recordar algumas coisas, é uma escolha sua. A primeira vez, por exemplo.
Não quer.
Puxa o autoclismo, baixa o tampo azul, lava as mãos sem qualquer vontade, a água está fria, passa apenas os dedos, sente a água levemente. Aprendeu da pior maneira que importa lavar as mãos. O corte manteve‑se no rosto durante mais de uma semana. M. não se encara no espelho, não precisa, sabe de cor os traços do rosto, a tristeza portátil que mora nos olhos e ainda vê o corte, uma cicatriz ténue na face direita. Enfrenta o corredor que já não é uma galáxia, o espaço decorado por estrelas e coisas que não sabe decifrar, o corredor é agora uma língua vermelha de chão que leva até ao quarto. De repente. O corpo estaca e M. volta atrás para desligar a luz. Diz num sussurro para si e apenas para si.

E desliga a luz.

O homem esqueceu‑se de dizer.
Há coisas que todos os adultos fazem, talvez por terem engolido as mesmas frases, famílias de palavras que juntas fazem frases que são repetidas exclusivamente pelos adultos. São mais previsíveis do que gostam de pensar. É tudo uma questão de observação e M. é experiente neste capítulo: reter aquilo que vê e ouve.
Perceber os padrões e o que é recorrente. A mulher desta casa, por exemplo, pontua as frases com a mesma expressão: na realidade. Na realidade, diz ela, incapaz de perceber que a realidade, como quase tudo, ou mesmo tudo, é uma construção efémera. Os adultos repetem‑se, equipamentos similares, as mesmas ideias, sentido de ordem, a impaciência e depois o resto. Por isso, tal como na primeira vez, nada é uma surpresa, porque M. sabe o que vai acontecer, teve um acesso empírico ao guião de vida das pes‑ soas que tem ao seu redor. Sabe coisas que são impronunciáveis, coisas que constroem alertas suficientes. M. sabe coisas e isso não comporta qualquer recompensa. Afinal, quem é que quer uma criança pequena com uma doença ou a saber coisas que possam diminuir a autoridade de quem é crescido?
Ninguém.
Uma questão cardíaca congénita, disse o médico, um dia, M. ouvira bem. Havia uma representação do esqueleto na parede e os ossos estavam desenhados em linhas muito finas, demasiado finas, a preto e branco, e depois, a vermelho, uma teia estranha e infinita de músculos, uma construção estranha, pensou M., e o esqueleto, solidário, não ostentava um coração, estava livre, bem livre disso. M. possui um coração zangado, é o que lhe parece, e o seu coração, apesar dos números, vive no terror de ter demasiadas perguntas a precisar de palavras que desconhece ainda. Outra vez as palavras. O coração que bate, M. coloca a mão gentil no peito e sabe que está lá, ainda mora ali, e que tem um defeito.
M. sempre pensou que o coração não iria sobreviver a tanta solidão, porque a verdade é que uma criança precisa de uma família, ou talvez seja um exagero, uma criança precisa de uma mãe. Uma mãe capaz de entender que os corredores são o espaço e os sonhos têm escorregas e que, por vezes, a vertigem de ir escorrega abaixo é hipnotizante, possui a habilidade de mudar a vida de quem acredita. O coração estragado, indigno, incapaz de fazer o que todos os outros fazem, é mais uma fatalidade para a condição que lhe confere o rótulo: diferente. E M. sabe que é diferente. Apesar disso, a assistente social, na Casa, explicara que a sorte estava do seu lado, num jogo de cartas a sorte estava ali e isso significava uma família. Apesar do seu coração esmigalhado, instrumento sem capacidades para ser mais.
Uma família é um homem e uma mulher. Ou dois homens, ou duas mulheres. Com mais crianças ou não. Às vezes, com outras pessoas. Uma família é sempre um retrato intrincado, cheio de pormenores que não são simples de reter: a tia da senhora é também prima da avó, porque é tia em terceiro grau. Coisas que fazem sentido para os adultos na sua ânsia de explicar o mundo. Não existe uma explicação simples para o que é uma família e adquiri‑la por escrito, ordens de alguém, decisão de ser mãe ou pai e, em consequência, fazer de alguém tio ou avó, não significa entender que tecido amoroso se irá tecer e como se deve vestir esse amor que se pretende para sempre. Uma família não natural, M. tinha ouvido. Era uma expressão infeliz e, ao mesmo tempo, entendia que o não natural significava apenas que o amor não era espontâneo e obrigatório, não nascia do corpo, do crescer dentro de si.